Descubra, Música Africana

Descubra: Songhoy Blues e suas canções do exílio

songhoy blus

É vasculhando cada vez mais o vasto universo musical global que volta e meia encontramos, escondidos aqui ou acolá, certos tesouros de valores inimagináveis. E quando nosso objetivo é encontrar tesouros musicais espalhados pelos quatro cantos do planeta, a Internet é uma ferramenta indispensável. Aqui, as distâncias físicas que nos separam são reduzidas a escalas mínimas. E, graças a essa aproximação, podemos ter acesso à música feita no Nordeste brasileiro, no Canadá, na Escandinávia, na Oceania e até na África Ocidental. Vem do Mali a banda da qual falaremos hoje no primeiro post da série Descubra desse mês: Songhoy Blues.

É singular a história desse grupo, que tem relação direta com a recente situação política do país africano. Tudo começou quando Garba Touré, guitarrista, teve de exilar-se de sua terra natal, Diré, motivado pela invasão de jihadistas no norte do país. Como contou em entrevista ao Guardian, teve migrar em direção ao sul do país por conta de proibições do grupo extremista em relação à música. As penas por executar músicas, seja com um instrumento ou mesmo por telefone celular eram, acreditem, detenção e chibatadas em público, além de outras penas ainda mais severas.

“O primeiro grupo rebelde a chegar foi o MLNA (Movimento Nacional pela Libertação da Azwad), mas eles não eram contrários à música, então não existia má relação entre eles e a população. Mas o Ansar Dine (um grupo islâmico armado, cujo nome pode ser traduzido como “seguidores da fé”) chegou e os perseguiu. Eles, então, determinaram que as pessoas deveriam parar de fumar cigarros, ingerir bebidas alcoólicas e fazer música. Mesmo não fumando ou bebendo, amo a guitarra; logo pensei: esse não é o momento para permanecer por aqui, preciso ir para o Sul” – disse Garba em entrevista ao jornal britânico.

Touré partiu em direção à capital Bamako. Lá, criou laços com outros músicos que viviam em meio ao mesmo caos. No desejo de recriar em forma de música os “ares do norte” e fazer com que os refugiados se aliviassem na musicalidade de sua terra natal, nasceu o Songhoy Blues. Após terem sido descobertos e produzidos por Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs), lançaram em Fevereiro desse ano seu debut, “Music in Exile”.

É encantadora a forma quase hipnotizante com que o grupo mescla elementos do rock’n’roll e da música malianêsa. Em canções como “Soubour”, podemos perceber semelhanças com a sonoridade do Black Keys do álbum “Brothers”. E as guitarras de Touré são, sem dúvidas, o maior atrativo instrumental do grupo. Com exímia habilidade, deixa sua marca ao apresentar suas linhas de guitarra baseadas em riffs e arpejos. É o que podemos ouvir em “Sekou Oumarou” e “Nick”.

“Al Hasidi Terei” é um dos pontos altos de “Music in Exile” e é a canção que melhor combina a africaneidade e a ocidentalidade do grupo. Já “Ai Tchere Bele” traz em seus 3min de duração todas as cores e toda a vivacidade de um desert blues encantador. Tal vivacidade também está presente nas belíssimas “Wayei”, “Desert Melodie” e “Petit Metier”.

Encanta em Songhoy Blues toda história de superação desses quatro africanos por meio da música. Fugidos de um contexto de opressão, encontraram na música a luz no fim do túnel. É arrebatadora a história por trás da obra desse quarteto. Especialmente para os ouvidos abertos a novas musicalidades.

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