Experimental, Psychedelic Rock

Tame Impala, Currents: décadence inélégante

Tame Impala despontou em 2012 como uma das principais bandas do meio indie. Naquele ano lançaram seu segundo trabalho, o elogiadíssimo Lonerism, que, com os hits fáceis Feels Like We Only Goes Backwards, Elephant, Apocalypse Dreams e Be Above It, elevaram a banda australiana ao mainstream. A banda – que na verdade só é uma banda quando sobe no palco, já que no estúdio tudo tem as mãos de Kevin Parker – encabeça a cena psicodélica originada na cidade de Perth, Austrália e é referência de qualidade, sutileza, lisergia e excentricidade. Bem, pelo menos costumava ser antes do recém-lançado Currents, seu terceiro álbum de estúdio.

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Em 2010, era lançado InnerSpeaker, o estupendo debut da até então desconhecida banda australiana. Com sua atmosfera onírica e sua sonoridade elétrica e colorida, causou grande impacto, mostrando ao mundo uma banda autenticamente rock’n’roll, como há muito não se via. Foi, talvez, a única grande novidade que o rock’n’roll proporcionou em questões sonoras. Contudo, 2010 ficou para trás e cinco anos depois encontramos um Kevin Parker totalmente diferente, bebendo de outras fontes e flertando com outras propostas.

No caso do indie, isso não é novidade – aliás, é tendência. Não são poucas as bandas que iniciam suas carreiras em um momento em que seus membros passam pelo período de transição entre a adolescência e a vida adulta. Isso faz com que seus primeiros trabalham sejam cheios de energia e vivacidade adolescente. Consequentemente, sua musicalidade vai se modificando à medida que o tempo passa, os músicos amadurecem e passam a ver o mundo com outros olhos e a expressar-se artisticamente de outra maneira. É natural.

Peguemos como exemplo os Arctic Monkeys. Em 2006 lançaram Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, uma obra-prima do garage rock, enérgica, potente e que fede a puberdade. Sete anos depois, foi lançado AM, que mostrou uma faceta totalmente diferente da banda, apostando em um som groovado, denso e bastante pop, além de apresentar uma novo Alex Turner, a monster black-dressed in leather.

Voltemos a Perth.

A mente criativa por trás do Tame Impala, Kevin Parker, já demonstrava há algum tempo por quais rumos seguiria em seu terceiro álbum, nós é que talvez não tenhamos percebido. Em suas contribuições para as obras de outros artistas, como o excelente Moodoïd e Mark Ronson (de que falei aqui no blog), já era perceptível a tendência por uma sonoridade mais funkeada, bem mais eletrônica e pop – bastante pop. O recado já estava dado: Kevin Parker estava mudando.

E é isso que ele afirma em uma de suas novas canções, “Yes, I’m Changing”: “Sim, estou mudando/ Sim, eu vou embora/ Sim, estou mais velho/ Sim, estou tocando em frente/ E se você não achar que isso seja um crime/ Venha comigo”. E a mudança é tão maciça que assusta.

Liricamente falando, Currents é riquíssimo. Ao contrário do que muitas bandas indie têm a oferecer, foge da superficialidade, apostando em letras com conteúdo e profundidade. Isso conta muito e nunca podemos deixar de tirar o chapéu para um bom letrista. Kevin Parker é um excelente letrista. A lírica exala sentimento, intimismo e subjetividade. Assim, foge bastante da temática lisérgica e frívola de antes. Ponto para Kevin.

Sonoramente falando, Currents é decepcionante. Isso não se dá por conta das tais mudanças de Kevin Parker, muito longe disso. Como já foi dito em um parágrafo acima, mudanças drásticas são de praxe no gênero. Mesmo assim, há casos em que o novo supera o velho (vide Radiohead) e há casos em que o novo não chega aos pés do velho (vide The Strokes). Tame Impala, infelizmente, agora faz parte deste último grupo.

“Let it Happen” é a faixa de abertura e, com seus intermináveis oito minutos de duração, nos dá uma boa perspectiva do que iremos encontrar logo adiante. Parker aposta em uma sonoridade desprendida, alicerçada em teclados e batidas sintetizadas, que, até certo ponto, agradam bastante. Contudo, acaba tornando-se absurdamente maçante, como boa parte do álbum.  “The Moment” também se destaca com uma proposta mais direta e elétrica. “Eventually” é bastante dinâmica e também merece atenção por conta de sua lírica. “Past Life” traz uma atmosfera LO-FI densa, mas que surpreende e, por isso, também merece destaque. Esses são os bons momentos que podemos encontrar em meio à lama e ao caos de Currents.

O que vemos além disso é uma série de canções inconsistentes, que erram na dose de experimentalismo e, assim, só afastam o ouvinte. Abusando de teclados sobrepostos e guitarras distorcidas em desalinho a isso, Kevin Parker cria uma atmosfera pouco convidativa, repulsiva. É duro perceber que a mesma mente criativa por trás de “Mind Mischief” e “Alter Ego” deu à luz “Nangs” e “Reality in Notion”

Currents peca em sua inconsistência, e em sua aventura experimental acaba não rendendo bons resultados no conjunto da obra. Sua lírica é interessante, mas música é um conjunto; a questão da sonoridade em certos casos conta mais. É um marco de ruptura de Kevin Parker com a lisergia indie de seus trabalhos anteriores, um marco da deselegante decadência do Tame Impala. Nota: 2/5

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