Indie, Música Brasileira

O turbilhão de sentimentos do Agreste de Troco em Bala

É o ato constante de apaixonar-nos por novas sonoridades e melodias que faz com que se renove em nós o encanto pela música e o desejo pela novidade. O desejo pela novidade faz com que a busquemos cada mais, ampliando nosso conhecimento, reinventando nosso gosto. Dentre as minhas tantas descobertas recentes, a banda Troco em Bala foi a que mais me marcou. Foi bem difícil não me encantar por seu debut Agreste desde a primeira vez que o ouvi e foi ainda mais difícil parar de ouvi-lo depois quando passei a senti-lo. É dele que falarei hoje.troco em bala agreste A origem do título do álbum está na região de transição entre a Zona da Mata e o Sertão nordestino, onde predomina a caatinga. De acordo com a banda, este nome foi escolhido por conta de todas transições sonoras que encontramos ao longo das oito faixas. Contudo, vou além disso e enxergo uma complexidade conceitual interessantíssima. Tais transições apresentadas em Agreste não são uma simples evolução sonora de um indie adolescente de garagem para um indie complexo e maduro. Ali enxerguei uma obra conceitual, onde lírica e musicalidade fundem-se em uma narrativa da transição entre a juventude e o início da vida adulta.

As oito faixas então dispostas em dois lados, A e B, razoavelmente opostos. O lado A traz a sonoridade de garagem, desprendida e adolescente, com letras que abordam temas como o dia a dia na escola, causos e dilemas dessa fase da vida. Já o lado B traz arranjos mais complexos, com instrumentos sobrepostos e linhas melhor trabalhadas, além de letras que passam a abordar temas existencialistas. Tememos por exemplo dessas diferenças “Homenzinho” e “Céu Azul”.

“Luz de Inverno” abre o álbum esbanjando influência de Los Hermanos e The Stroke, que são duas influências marcantes em Agreste, além de Arctic Monkeys (Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, que marcou uma geração inteira).  Destacam-se as guitarras, que abusam de power chords, soando simples, secas e diretas. Bebendo as influências citadas acima, temos uma canção que explora bastante as formas básicas do indie rock.

“Homenzinho”, apresenta um retorno aos anos de escola numa narração sobre o começo da adolescência, do cotidiano e dos dilemas vividos pelo eu lírico nessa fase da vida. Voltando a esse passado, enfatiza que era apenas “um homenzinho sem noção”, inconsequente, ingênuo, fascinado com o mundo que se abria diante de seus olhos tão rapidamente; a vivência escolar era ruim, o ambiente familiar era abusivo e sua saída para isso foi tornar-se um “homenzinho muito mau”, que bebia vinho e escondido ia fumar. Ao final, chegou ao Ensino Médio e tudo acabou-se em tédio. Enquanto a lírica atrai, o instrumental desanima por ser repetitivo e maçante.

O grito “Eu quero ser uma parte de tu/Eu quero ser seu norte, seu sul/Quero botar meu nome na sua história/Ser pau pra toda obra” de “Mais ou Menos” é o momento mais divertidamente rock’n’roll de Agreste.  Pouco mais de três minutos que transbordam a mistura carismática e pouco ambiciosa de um vocal potente e um instrumental cheio de fluidez distorcida em seu riff principal.

“Quando o Sonho” transita entre os dois lados de álbum, mesclando a sonoridade de garagem desprendida e adolescente do lado A à temática mais subjetiva e existencialista, características do lado B. Agora o eu lírico cresceu e não é mais aquele “homenzinho sem noção” entediado com o Ensino Médio. Refletindo sobre o comodismo da rotina, vê-se levando a vida no automático, esvaziando-a de sentido, transformando o ódio em sua tônica. E encerra atestando que as pessoas são tão normais e iguais, sentadas no trono de seus apartamentos com as bocas cheias, escancaradas de dentes, esperando a morte chegar.

E então chegamos ao lado B, onde ouvimos o tema instrumental “Agreste” romper totalmente com a proposta sonora anteriormente apresentada. A energia distorcida de antes dá lugar a uma atmosfera melodiosa e intimista, orquestrada por guitarras sobrepostas que regem a dança de seus acordes, mostrando que o belo pode ser simples e o simples pode ser belo. Essa ideia simplista está presente não somente nesta como na faixa seguinte, “O Céu”. Aqui o eu lírico afirma “Há muito tempo não me escuto/Algo dentro de mim se rompeu”, e, rompido consigo mesmo, sente-se sozinho no mundo, esquecido inclusive por deus.

 O melhor que Troco em Bala tem a nos oferecer em seu debut são as duas últimas faixas. A sutileza com que cada verso é cantado em “As Nuvens” e a harmonia entre os instrumentos criam essa uma atmosfera dinâmica que cativa ao guiar o ouvinte por seus momentos de sussurros e trovões, luz e sombra. A forma com que Bruno Berle consegue imprimir sentimentos em sua voz é um dos grandes trunfos deste Agreste, como podemos observar em Jasmin. Sua voz dança voluptuosamente por versos e estrofes e durante o refrão ganha força e potencializa o refrão de tal forma tocante, encerrando o álbum em um grito rouco transbordante de sentimento “São tantos edifícios escondendo a paisagem/Seu corpo é um grito que afasta a tempestade”.

Troco em Bala consegue fazer num intervalo de oito faixas o que muitas bandas graúdas fizeram em um intervalo de oito anos. É estonteante. Fogem bem de alguns clichês do gênero e merecem crédito por isso. A construção conceitual ali presente, tecida por linhas tão tênues, é o que mais fascina o ouvinte e o que mais agrega valor a Agreste como obra. Nota: 4.5/5

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